Público X Ocorrências no JECRIM em 2012

No sábado, o Túlio Milman publicou numeros sobre as ocorrências dos Juízados Especiais Criminais instalados no Olímpico e no Beira-Rio. Os dados, em si, dizem pouco. Mas eu me senti particularmente incomodado pela interpretação feita pelo referido colunista. Disse ele:

Por ter disputado maior número de competições no período, o Inter jogou mais em sua casa. A tendência se inverteu neste ano. O Grêmio jogou a Copa do Brasil e a Sul-Americana, enquanto o Inter iniciou a reforma do seu estádio.” (Grifei)
O primeiro ponto a ser refutado é essa afirmação de que o time que disputa um maior número de competições acaba jogando mais vezes em casa. Isso é um sofisma. O segundo ponto equivocado do texto é a afirmação de que a “tendência” se inverteu em 2012. Estes dois pontos são refutados com um único dado: O Grêmio teve 36 partidas como mandante em 2012, contra 37 do Internacional*, mesmo tendo o tricolor disputado quatro competições no ano (Gauchão, Copa do Brasil, Brasileirão e Sul-americana) contra 3 competições do colorado (Gauchão, Libertadores e Brasileirão).
A questão é que para fazer qualquer espécie de comparativo é preciso estabelecer um critério claro de comparação. Estabelecer qual o universo da pesquisa feita. E no caso dos números do JECRIM me parece claro que este universo é total de pessoas que foram aos jogos de Grêmio e Inter nesse ano. O número de competições é inadequado, por que não há uma correlação entre o número de competições e nº de jogos, e maior/menor número de jogos não necessariamente significa maior/menor público nos estádios. A questão se resolve pelo número de pessoas que frequenteram o estádio. E foi justamente a ausência desse dado que eu cobrei no twitter.
O colunista parece não ter entendido o reparo/acréscimo que eu fiz. Também não entendeu a diferença entre nº de competições, nº de jogos e quantidade de público. Optou por apelar ao expediente da “anti-grenalização”. Uma pena, acho que o tema merece debate e atenção. Violência/segurança nos estádios é um tópico delicado, e notícias mal colocadas e dados mal interpretados podem acabar causando um clamor para medidas restritivas direcionadas a quem costuma ir em campos de futebol
É preciso saber interpretar as estatísticas. É preciso confrontar os números fornecidos por orgãos oficiais com outros dados. Parte da imprensa alemã parecia ter entendido isso. Um exemplo disso pode ser lido em recente matéria do jornal Der Westen, da qual eu destaco os seguintes trechos:

Todo o ano a polícia divulga os números sobre a violência nos estádios de futebol. E cada ano cresce o debate sobre segurança. Depois do inicial discurso “nunca houve tanta violência nos estádios”, surge agora o debate inflamado sobre a significância da estatística.
[…]18,7 milhões de espectadores, e com isso 1,3 milhões a mais que na temporada passada estiveram no estádio, em 757 jogos na temporada 2011/2012. E a porcentagem de feridos cresceu apenas 0,0051 por cento. “O estádio de futebol é o local mais seguro da Alemanha. A ânsia/força desse debate não tem lógica.” resume o advogado Tobias Westkamp.”

Parece sensato, simples, e certamente o jornalista que escreveu a matéria acima citado fez algo muito mais produtivo de que tentar silenciar a parte que o questiona.

Mas é possível tirar alguma conclusão dos dados fornecidos pelo JECRIM? Eu acredito que sim, desde que se tenha presente o número de pessoas que os estádios de Grêmio e Inter receberam em 2012. Abaixo segue uma tabela com as médias e o total de público nos jogos em casa da dupla Grenal.

Levando em conta somente os dados fornecidos pelo JECRIM e repetidos pelo colunista pode se ter a falsa sensação de que o Olímpico é mais “violento” que o Beira-Rio. Mas quando confrontamos o número de ocorrências com a quantidade de público (quadro abaixo) se verifica que a média dos dois clubes é muito parecida.

Este é apenas um dos aspectos que pode ser questionado. Poderíamos também perguntar o que de fato constituem essas ocorrências, se há algum setor do estádio que elas se verificam em maior quantidade, se a Brigada age com o mesmo rigor em todos os jogos e estádios, e por aí em diante. Acho lamentável que alguns abordem a questão de maneira tão superficial, se limitando a replicar “releases” de assessoria de imprensa e ignorando os que propõe acréscimos e questionamentos.

* Considerando Inter 3×0 São José, que foi disputado no Complexo Esportivo da Ulbra. Não achei o público total desse jogo, estimei em 7.000, muito embora os pagantes não tenham passado de 1.500

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3 Responses to “Público X Ocorrências no JECRIM em 2012”

  1. Vicente Fonseca Says:

    Excelente análise! Impressionante a semelhança de dados entre Grêmio e Inter.

    Abraço.

  2. Marcão 1903 Says:

    Impressiona também, que o clubismo vem na frente de uma análise coerente por parte destes senhores i-$ENTO$, os quais têm microfones e redações para dizer aquilo que bem entendem da maneira que acham.

    Muito poder para quem não o merece.

  3. heraldo Says:

    -Parabens pela analise.
    -Que classe!
    -Tem que ser observado tambem que, se o n° de torcedores é menor, e o indice é igual, o que eu penso, que o maior numero de delinquentes, esta no menor numero de torcedores.Acredito que como a proporção é de 1:2, para ser igual o GREMIO deveria ter o dobro de infrações.(não to muito convicto disso, mas minha logica leva a crer que sim.)

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