Wianey e o Relatório Taylor

Em 10 de fevereiro de 2013, Wianey Carlet publicou o seguinte texto na sua coluna do Jornal Zero Hora:
“O começo
Atribui-se a elitização do futebol inglês a um episódio trágico durante a partida entre Liverpool e Nottinghan Forest, no Estádio de Hillsborough. Foram massacradas 96 pessoas. Margareth Tatcher encomendou uma investigação que confiou ao lorde Taylor de Gosforth. O documento saído deste trabalho foi chamado de Relatório Taylor e constitui-se em uma descarada manipulação dos fatos, recentemente denunciada pelo primeiro ministro do Reino Unido, David Cameron. O relatório oficial responsabilizou os mortos, acusando-os de pertencer aos hooligans do Liverpool. Cameron pediu desculpas aos familiares dos mortos pela fraude produzida pelo governo de Tatcher, que precisava de um motivo forte para desencadear o processo de elitização dos estádios, que o Brasil pretende imitar.” (Grifei)

São tanto os erros neste parágrafo que eu não sei nem por onde começar. Primeiro eu tenho sérias dúvidas que um sujeito que sequer saber soletrar “Thatcher” tenha de fato lido o relatório Taylor. Se leu, não consigo entender como ele chegou a tal conclusão. 
Em 17 de abril de 1989 (dois dias após a tragédia de Hillsborough) o Lord Taylor foi designado para fazer uma investigação sobre o ocorrido no estádio do Sheffield Wednesday e fazer recomenadações sobre o as exigências de controle de multidões e seguranças em eventos esportivos. Para tanto, ele dividiu o seu trabalho em dois documentos. O primeiro deles é um relatório provisório (Interim Report) que se dedicava a descobrir “como e por que o desastre ocorreu”. O segundo é o relatório propriamente dito (Final report). Uma leitura superficial nos dois documentos é o suficiente para perceber que o relatório, em nenhum momento, responsabiliza os mortos pelo acontecido. E essa não é uma interpretação só minha, mas também da mídia inglesa.
Consta em recente reportagem do jornal The Guardian: “Following the publication of the Taylor report, which laid the blame at the door of the police and exonerated the fans, the prime minister was briefed that the “defensive – at times close to deceitful – behaviour by the senior officers in South Yorkshire sounds depressingly familiar”. In cabinet papers Thatcher expresses her concern that the “broad thrust” of Taylor’s report constitutes “a devastating criticism of the police”. (Numa tradução livre: “Após o a publicação do relatório Taylor, que colocava a culpa na polícia e inocentava os torcedores“)
A BBC fez uma matéria sobre a reação da Margareth Thatcher sobre as conclusões do relatório Taylor. Está na reportagem: A primeira-ministra já tinha sido avisada que o relatório provisório condenava fortemente a polícia mas atribuía pouca ou nenhuma culpa aos torcedores do Liverpool” (“The prime minister had already been warned the interim report was “very damning” of police but attached “little or no blame” to Liverpool fans.”

Em nenhum momento o primeiro-ministro David Cameron pediu desculpas pela “fraude produzida pelo governo de Thatcher”. Em razão da conclusão dos trabalhos de um painel independente sobre Hillsborough, David Cameron fez um pronunciamento na Câmara dos Comuns. Nesse pronunciamento ocorreu um pedido de desculpas pela “falência” das autoridades (Polícia, Serviços de emergência) e pela tentativa da polícia em alterar a verdade dos fatos durante as investigações. Mas isso não pode ser confundido com uma suposta censura sobre a investigação feita no relatório Taylor.

Segundo David Cameron: “There was a public inquiry at the time by Lord Justice Taylor which found – and I quote – that the main cause of the disaster was “a failure of police control” (Houve uma investigação pública na na época conduzida pelo Lord Justice Taylor que concluiu – e eu cito – que a principal causa do desastre foi “o colapso do controle policial“) e “the panel found no evidence of any government trying to conceal the truth” (o painel não encontrou evidência de nenhum governo tentando esconder a verdade“)

É assustador que um colunista do principal jornal do estado tenha uma visão tão distorcido sobre o relatório Taylor. E não há como minimizar tal fato. Não se trata de um caso pitoresco na história de futebol e sim DO PARADIGMA na questão de segurança nos estádios do esporte moderno.
Ainda mais preocupante é o fato dessa coluna ter sido publicado há mais de um mês e desde então ninguém tentou corrigir o colunista, que segue falando incessantemente sobre a questão da violência no futebol.

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8 Responses to “Wianey e o Relatório Taylor”

  1. Unknown Says:

    Este comentário foi removido pelo autor.

  2. Unknown Says:

    Velhos caducos e péssimos profissionais dominam a nossa mídia esportiva. Eles deviam discorrer suas teses sobre a imbecilização do jornalismo esportivo no RS e não de assuntos que não dominam, aliás não dominam assunto nenhum, o ibope deles se baseia em desinformação, achismos e CRISES inventadas. Já ouvi opiniões bem mais qualificadas em botecos pré-jogos.
    Já cancelou sua ZH hoje?

  3. Paulo_PoA Says:

    Fico aqui “imaginando com meus botões” se, um “cronista esportivo” distorce assim uma notícia, o que fazem os demais jornalistas com as “outras notícias”?
    Bom, basta ver como nos chegam as “manchetes” sobre a Venezuela/Chaves.

    É que pensar, dói!

    Dá-lhe Grêmio!

    Abr.,
    Paulo

  4. martina Says:

    é triste.

    e o Taylor Report deveria ser leitura obrigatória mínima para quem determina as normas de segurança nos estádios.

  5. Edelmo Araujo Says:

    Olha André, tu estás de parabéns pelo teu post. Eu te confesso que nem sabia dessa matéria por um simples fato, eu parei de acompanhar a imprensa gaúcha e um bom tempo. E não é por fulano ser ou não colorado (até porque prefiro jornalistas que assumem seu time aos que ficam no “muro”).

    Agora, é impressionante ver uma coisa dessas. Me arrisco a dizer que ou ele não sabe inglês, ou se aproveita de quem não sabe para “jogar” suas verdades no ar e ver se cola.

    Enfim, parabéns mais uma vez pelo texto! Forte abraço e saudações tricolores!

    o/

  6. Anonymous Says:

    André,

    Wianey publicou hoje NO CANTO MAIS ESCONDIDO da parte de esportes o reconhecimento pelo erro dele, e citou seu nome…. muito bom!!!

  7. André Kruse Says:

    De fato ele publicou o reconhecimento do erro.
    http://twitpic.com/cbjmlp

    Mas não fez conforme determina o código de ética da RBS

    “CORREÇÕES
    A RBS não oculta erros de informação e se dispõe a corrigi-los sistematicamente, tão logo tome conhecimento do equívoco.
    O texto da correção deve começar pela informação correta e explicar ao público, sem subterfúgios, qual foi o equívoco cometido

    http://www.gruporbs.com.br/responsabilidade_social/guia_etica/etica_rbs.pdf

  8. André Kruse Says:

    http://www.gruporbs.com.br/wp-content/files_mf/1385035893guia%C3%A9tica_pgsduplas.pdf

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