30 anos da Libertadores de 1983 – Bolívar 1×2 Grêmio

No seu terceiro compromisso na Libertadores de 1983, o Grêmio teria que enfrentar o Bolívar e os 3600 metros de altitude de La Paz. De todo o plantel, apenas Tita e De León tinha experiência em tal situação.
Por óbvio que a preparação do Grêmio para essa partida virou assunto dominante nos jornais de época.Sobre os efeitos da altitude, Tarciso disse que “Parece até aquela história do monstro do lago lá da Europa. É pura lenda. Acho que está muito da cabeça de cada um.” Por sua vez Renato Portaluppi disse que era “tudo história”  e que iria “pagar pra ver“, justificando da seguinte forma: “Afinal eu nasci num lugar alto; em Bento Gonçalves também faz frio”. O folclórico político e torcedor gremista Alceu Collares encontrou a delegação tricolor na Bolívia e garantiu que a maior parte dos problemas era de ordem psicológica. Experiente em Libertadores, o ex-zagueiro Ancheta alertava que em La Paz a “bola parece que não obedece a lei da gravidade“.
A bola em si merece um comentário a parte. Os jogadores gremistas estranharam a pelota usada pelas equipes bolivianas. O goleiro Remi chegou a usar tal fato para justificar a sua falha no gol sofrido pelo Grêmio.

Um fato curioso é que o planejamento inicial do Grêmio foi alterado já na Bolívia. Influenciados pelas experiências dos dirigentes do Blooming, os comandantes tricolores determinaram que o descolacamento de Santa Cruz de la Sierra para La Paz só seria feito no dia do jogo.

Outro episódio pitoresco dessa viagem foi protagonizado pelo presidente de Bolívar, Sr. Mário Mercado. Após ter assistido ao confronto do Grêmio e Blooming, ele teria se espantado com o baixo rendimento do time gaúcho e teria que prometido que sua equipe não proporcionaria o mesmo clima de “cavalheirismo” visto em Santa Cruz, e que seus atletas fariam um “jogo violento” em La Paz.

Diante de todo esse cenário, Valdir Espinosa decidiu simplicar o seu conceito de toque de bola. Pediu que os atletas fizessem um “bobinho” em campo, na sua já celébre “preleção de um minuto“. E as ordens do treinador gremista deram certo, muito embora o gol da vitória não tenha surgido em toques curtos, e sim num chute de longa distância de China. Diante dos bons resultados da excursão, a delegação gremista foi recebida com festa no aeroporto Salgado Filho.

O jogo foi transmitido pela TV Gaúcha. O Grêmio vendeu os direitos de televisionamento dos seus 3 primeiros jogos na Libertadores por Cr$ 40.000.000,00 (Cerca de 150 mil dólares). O curioso é que eu só encontrei imagens em vídeo da partida. Os principais jornais de Porto Alegre enviaram jornalistas para Bolívia, mas esses não fizeram registro fotográfico do jogo. E a revista Placar só publicou fotos do jogo contra o Blooming.

*Quarta-feira, 23 de março de 1983
Equipe embalada para jogar em La Paz.

A vitória sobre o Blooming por 2 a 0 cobriu de entusiasmo e confiança o plantel gremista. O resultado deixou o Tricolor na liderança do Grupo 2 com três pontos ganhos e um novo resultado positivo no jogo seguinte, contra o Bolívar, encaminharia a classificação para a fase semifinal da melhor maneira possível já que a equipe gremista iria enfrentar os bolivianos no Olímpico, nos jogos de volta.
Dentro de um projeto visando minimizar os efeitos da altitude, em La Paz, a delegação seguiu hospedada em Santa Cruz de La Sierra com partida marcada para La Paz apenas no dia do jogo.
No dia seguinte à vitória sobre o Blooming, os jogadores que atuaram os 90 minutos receberam folga. O resto do grupo realizou um treinamento leve sob o comando do preparador Ithon Fritzen.
Em todos os momentos com o grupo, Valdir Espinosa tratou de preparar a cabeça do jogador para que o assunto “altitude” não viesse a influenciar o psicológico de cada um.A tática não poderia ter sido melhor. (Gremio.net)

*Quinta-feira, 24 de março de 1983
O fantasma da altitude

Nenhum aspecto extra campo ficou de fora dos preparativos do Grêmio para a partida contra o Bolívar, na altitude de La Paz. A diretoria, auxiliada pelo departamento médico e a equipe de preparação física, pensou em todos os detalhes, desde uma alimentação especial organizada por nutricionistas até a viagem para La Paz no mesmo dia do jogo.
O técnico Valdir Espinosa, preocupado com o efeito psicológico que o fantasma da altitude poderia provocar sobre o grupo de atletas, procurou amenizar e tranqüilizar cada um dos jogadores. Uma conversa franca deixou o grupo ciente de que enfrentar a altitude de La Paz não seria um bicho de sete cabeças.
Evitando o desgaste, a equipe realizou um trabalho leve na manhã de quinta-feira no gramado do estádio Tauichi Aguilera, onde o Tricolor vencera o Blooming na terça-feira passada, comandado pelo preparador Ithon Fritzen.
A viagem para La Paz ficou marcada para a manhã de sexta-feira, dia do confronto contra o Bolívar.
*Sexta-feira, 25 de março de 1983
Vitória heróica com gol espetacular
O vôo de Santa Cruz de La Sierra para La Paz foi rápido e a delegação gremista desembarcou por volta das 10h.
Ainda no aeroporto, os sintomas da altitude já se fizeram presentes: o vice-presidente de Futebol, Alberto Galia, sentiu fortes tonturas e teve que ser atendido no local.
A delegação seguiu imediatamente para o hotel.
Seguindo determinação do médico Alarico Endres, os jogadores permaneceram descansando nos quartos para evitar desgastes desnecessários.
Dentro do processo de preparação para este confronto, o Grêmio não deixou de fora nenhum detalhe. Até mesmo a alimentação ingerida pelos atletas passou por uma minuciosa análise feita por uma equipe de nutricionistas. Foi privilegiada uma alimentação baseada em carboidratos e suplementos de fácil absorção com destaque para os doces.
Após o almoço, os jogadores seguiram descansando até o horário da palestra do técnico Valdir Espinosa.
Uma palestra, aliás, que merece uma atenção especial: estando todos os jogadores, dirigentes e comissão técnica reunidos em uma ala do hotel, Valdir Espinosa pediu a palavra. Caminhou pela sala e, olhando para os jogadores soltou: “chocolate neles”.
Foi a palestra mais rápida da história do Grêmio.
Na verdade, era a senha para que os jogadores colocassem em prática tudo aquilo que já havia sido trabalhando tanto dentro de campo quanto mentalmente.
– Naquele momento, precisava diminuir ao máximo a adrenalina dos jogadores, pois o efeito, na altitude, é prejudicial. Já havíamos conversado bastante sobre o que fazer, não precisava dizer mais nada naquela hora. Explicou Espinosa.
Quem não gostou nada da palestra do treinador gremista foi o presidente Fábio Koff.
– Ele ficou indignado. Queria a demissão do Espinosa. Sorte que conseguimos a vitória. Lembrou Antônio Carlos Verardi, Supervisor do Clube.
Mas não foi uma vitória fácil.
Empurrado pela torcida e num ritmo frenético, o Bolívar partiu pra cima do Grêmio.
Acuado, o Tricolor tratou de se segurar como podia. Remi foi se transformando no grande nome do jogo com pelo menos duas defesas à queima roupa com os atacantes bolivianos.
O Grêmio respondeu em duas oportunidades com Tita. Numa delas, em bola parada, o meia gremista levou perigo.
Depois de tanto pressionar, o Bolívar abriu o marcador aos 35 minutos. Gallo chutou forte, rasteiro, da entrada da área. Remi calculou mal a defesa e deixou a bola escapar de seus braços. No rebote, o zagueiro Navarro empurrou para o gol aberto.
Atrás no marcador e tendo que enfrentar a altitude de quase 4 mil metros de La Paz, o Grêmio chegou a perder a cabeça em algumas oportunidades. China cometeu uma falta feia e levou apenas cartão amarelo.
O apito do árbitro determinando o intervalo veio na hora certa.
No vestiário, mais uma vez Espinosa foi sucinto na conversa com os jogadores:
– Eu pedi para que eles fizessem como se estivessem em uma roda de “bobinho”, colocando o adversário na roda e partindo pra cima quando tivessem a oportunidade. Lembrou o treinador gremista.
O Bolívar voltou para o segundo tempo disposto a matar o jogo. Aos oito minutos, depois de um escanteio, Vargas acertou o poste direito de Remi.
Escapou o Grêmio.
Coincidência ou não, o Grêmio chegou ao empate um minuto depois da entrada de Tarciso. Ele ingressou na partida aos 20 minutos, no lugar de César, e o Grêmio marcou aos 21: Casemiro recebeu na esquerda e cruzou com perfeição. Osvaldo entrou de cabeça e venceu o goleiro. 1 a 1!
O gol chegou na hora certa. O time cresceu em campo e o Bolívar se encolheu sentindo a força do Tricolor.
O toque de bola pedido por Espinosa surtiu efeito e o Grêmio passou a dominar a partida.
A altitude, até então o maior fantasma, parecia não existir mais e o Tricolor passou a sobrar em campo na parte física.
Espinosa colocou Bonamigo no lugar de Tonho fazendo com que Tita pudesse se movimentar mais comandando o jogo no meio campo.
Sentindo que poderiam obter um resultado melhor que o empate, os jogadores partiram pra cima.
No minuto 37, surgiu o gol da vitória gremista. Um gol espetacular.
Depois de envolver o adversário no toque de bola, Tita virou o jogo para China, poucos metros à frente da linha do meio campo. China dominou e mandou a bomba. Um chute inacreditável. A bola viajou por aproximadamente 50 metros até encobrir o goleiro Elso. Grêmio 2 a 1!
Três minutos depois, Tarciso ainda perdeu a chance de ampliar.
No final, grande vitória gremista reconhecida como uma das mais difíceis da competição.
Um dia histórica para o Grêmio e para China que, segundo ele, marcou o gol mais bonito de sua vida. (Gremio.net)


Sobre esse jogo é interessante o relato do Valdir Espinosa:

Preleção de um minuto.

O jogo da Seleção Brasileira neste final de semana em La Paz traz a tona, novamente, o problema de jogar nos 3.600 metros de altitude em La Paz e me recorda quando estive lá pela primeira vez, com o Grêmio, para enfrentar o Bolívar pela Copa Libertadores da América em 1983.
Primeira fase da competição sulamericana. Grupos de 4 equipes. Classificava-se apenas uma e no nosso grupo tínhamos que enfrentar Bolívar, Blooming e Flamengo. Os problemas acarretados pela altitude eram maiores, o conhecimento destes efeitos ainda não eram tão estudados e a preparação física estava iniciando a era científica. Na semana do jogo em La Paz todos estavam assustados em Porto Alegre com o fantasma da altitude, imprensa, torcida, direção, jogadores e comissão técnica.
A preparação foi toda diferente, mudança na alimentação, nos horários dos treinamentos, tudo para atenuar os efeitos da altitude. Até aquela oportunidade, me parece, que nenhuma equipe estrangeira havia conquistado duas vitórias na Bolívia, pois enfrentava-se as duas equipes do outro país na mesma semana na casa deles e depois eles vinham ao Brasil. Jogamos em Santa Cruz de la Sierra e vencemos o Blooming, viajamos para La Paz no dia do jogo, chegamos ao meio-dia para jogar a noite. Sabia que não poderíamos enfrentar o Bolívar tentando impor velocidade.
Iniciei a preleção as 18:00 horas. Pela primeira vez naquela temporada estavam presentes o supervisor do Grêmio, Verardi, e o presidente Fábio Koff. Comecei falando que aquele jogo deveria ser organizado como uma rodinha de bobo, aonde estivesse a bola deveriam estar quatro jogadores nossos, quando chegasse um deles trocassem o local da roda. Não deveríamos ter a preocupação de atacar e sim de ter a bola. Desejei sorte para todos. Encerrei a preleção.
O presidente, assustado, falou para o Verardi:”No final do jogo pode mandar esse treinador embora. Em um dos jogos mais importantes da história do Grêmio ele dá uma preleção de um minuto só.”
Primeiro tempo, só posse de bola e a rodinha de bobo. No intervalo eu disse : ‘Agora vamos movimentar a rodinha em direção ao gol deles, vamos atacar.’ Perdíamos por 1 a 0 e viramos o jogo com gols de Osvaldo e China. Final Bolívar 1 x 2 Grêmio. Terminamos o jogo ainda mais descansados do que a equipe do Bolívar.
Após isso tudo o Dr. Fábio Koff entendeu que era um jogo em que tínhamos que entrar em campo tranquilos, sem muita adrenalina, por isso não seria correto fazer uma preleção com altas doses de motivação.
O resultado da história voces sabem… Continue empregado e fomos Campeões da Copa Libertadores da América.” (Valdir Espinosa)

China foi recebido como herói após marcar um golaço em La Paz
Renato desembarcou em Porto Alegre com um portentoso chapéu

Bolívar 1×2 Grêmio

BOLIVAR: Elso; Vargas, Navarro, Urizar e Arias (Figueroa); Ângulo, Gallo e Romero; Borja, Salinas e Silva (Baldessari)
Técnico:  Ramiro Blacut

GREMIO: Remi; Silmar, Leandro, De León e Casemiro; China, Osvaldo e Tita; Renato, César (Tarciso) e Tonho(Bonamigo).
Técnico: Valdir Espinosa
Reservas: Beto, Baidek, Bonamigo, Tarciso e Lambari.


Fase de Grupos – 3ª rodada – Libertadores 1983

Data: 25 de março de 1983, sexta-feira, 21h30min
Local: Estádio Hernando Siles em La Paz- Bolivia
Juiz: Ernesto Filippi (Uruguai)

Auxiliares: Ramón Barreto e Jose Luis Bazan 
Cartões Amarelos: Renato, Casemiro, China,  Arias e Navarro
Gols: Navarro (BOL – 35 do 1ºT) Osvaldo (21 do 2ºT) China (37 do 2ºT)

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