30 anos da Libertadores de 1983 – Estudiantes 3×3 Grêmio

 

Há 30 anos, Estudiantes e Grêmio empatavam em 3×3 pelo triangular semifinal da Libertadores, na partida que  antes  mesmo de ser realizada já era chamada de “Batalha de La Plata”.  Em 30 anos muitas histórias foram contadas, recontadas, inventadas e desmentidas sobre esse jogo. Penso que é importante ressaltar alguns pontos:

Argentina e Brasil viviam um crise diplomática. No final de junho de 1983 o jornal Zero Hora fotografou aviões militares ingleses, que se dirigiam as ilhas Falkland, sendo abastecidos em Canoas e Florianópolis. Tal fato serviu para reavivar o boato de que o Brasil deu guarida as aeronaves britânicas na guerra das Malvinas, ocorrida no ano anterior.
– Desde o final da década de 1960 o Estudiantes gozava de uma má reputação, especialmente pelo anti-jogo que promovia nos seus domínios. Em 1983 a fama persistia. O América de Cali havia alertado ao Grêmio que recusasse o ônibus fornecido pelo time de La Plata aos visitantes, uma vez que os colombianos foram submetidos a um trajeto especialmente demorado, com duração de mais de 3 horas, visando atrasar o preparo da equipe. Devidamente avisada, a direção gremista tratou de providenciar o seu próprio transporte na Argentina.
– O juiz uruguaio Luis de La Rosa foi muito elogiado pela sua coragem em expulsar diversos atletas do time da casa. Contudo, um detalhe pouco lembrado é que ele anulou, sem nenhum motivo aparente, um gol de César para o Grêmio quando o placar era de 3×2 para o tricolor.
– O Grêmio, com apoio da FGF e CBF, pediu a Conmebol que eliminasse o Estudiantes da competição em razão de todos os incidente ocorridos. Fábio Koff encaminhou tal solicitação com descrença. Descrença essa que só aumentou após o presidente da Conmebol, o peruano Teófilo Salinas, anunciar que o adiamento da decisão para depois do último jogo entre America e Estudiantes, justificando o atraso em um suposta dificuldade técnica de analisar o video-tape da partida.
O empate manteve o Grêmio na frente da tabela, mas na incomoda situação de poder ser superado caso o Estudiantes vencesse o já eliminado América em Cali.

 


Texto do site do Gremio:

No dia 08 de julho de 1983, o Grêmio viveu um dos momentos mais dramáticos de sua história. Era uma sexta-feira à noite e o Tricolor enfrentava os argentinos do Estudiantes em busca de uma vaga na decisão da Copa Libertadores. O acanhado estádio de La Plata estava repleto de torcedores fanáticos e raivosos. Além da tradicional rivalidade futebolística entre os dois países, no ar ainda pairava o ressentimento pelo fato dos gaúchos terem permitido o pouso de jatos ingleses na Base Aérea de Canoas quando a Argentina lutava pela posse das Ilhas Malvinas no ano anterior. A raiva canalizada para os jogadores e dirigentes gremistas criou um clima insuportável de tensão desde a chegada do Tricolor ao estádio até o término da partida. Antes mesmo do início do jogo, o árbitro uruguaio Luis de la Rosa apresentou cartão amarelo para o atacante Trobbiani, um fato inusitado

Empurrado pela torcida mas sem nenhuma obediência tática, o time argentino dominou a partida nos minutos iniciais. Passado os primeiros 15 minutos de pressão, o Grêmio começou a fazer prevalecer seu toque de bola e chegou com perigo em contra-ataques puxados por Tarciso.

Aos 30 minutos, o mesmo Trobbiani que havia levado cartão amarelo antes do início da partida agrediu China com um pontapé revidando uma falta feita pelo volante gremista e foi expulso. Raivosos, os jogadores do Estudiantes partiram para a reclamação. Ponce empurrou o árbitro uruguaio e acabou recebendo cartão vermelho.

Com nove em campo, os argentinos abriram o marcador na cobrança de falta: Gurrieri aproveitou falha na defesa gremista e mandou para as redes.Com mais espaço para jogar, o Tricolor chegou ao empate no último minuto da primeira etapa: Osvaldo concluiu dentro da área um passe de Tarciso

A violência dos argentinos continuou até mesmo no intervalo de jogo. Na saída para os vestiários, em um túnel único para as duas equipes, Caio foi covardemente agredido por jogadores e dirigentes do time da casa. Resultado: não conseguiu retornar para a segunda etapa.

O castigo veio logo aos 8 minutos: Cesar, que havia entrado no lugar de Caio, virou o jogo para o Grêmio depois de grande jogada de Renato
Com a vantagem no marcador, o time tratou de tocar a bola com o único objetivo de fugir das divididas mais fortes onde os argentinos nem faziam questão de esconder o desejo de tirar algum jogador gremista da partida na base da violência

Mesmo assim, aproveitando os espaços, o Tricolor ampliou o marcador com Renato, depois de uma grande jogada individual. O gesto de Renato que, depois do gol, mandou a torcida calar a boca, foi o que faltava para que os argentinos enlouquecessem de vez. Três minutos depois do gol de Renato, aos 21, o auxiliar Ramón Barreto foi agredido com uma pedrada na cabeça. Estirado no gramado, coberto de sangue, o auxiliar uruguaio teve que ser atendido pelo médico gremista, Dirceu Colla. Na confusão, Camino recebeu cartão vermelho e deixou o gramado. Mesmo destino de Tevez, expulso 4 minutos depois ao agredir Renato

Mesmo com apenas 7 jogadores em campo e se aproveitando da excessiva cautela dos jogadores gremistas que evitavam as divididas o Estudiantes descontou aos 31 minutos com Gurrieri. Logo depois, o até então corajoso árbitro uruguaio Luis de la Rosa, anulou um gol legítimo marcado por César ao atender o aceno de impedimento do bandeirinha Ramón Barreto. Naquelas circunstâncias de jogo, ninguém reclamou.


Só mesmo quem esteve presente nesta inesquecível passagem de história centenária do Grêmio poderia explicar o que se passou lá. Seja como for, a famosa partida de La Plata pela Copa Libertadores de 1983 foi um dos acontecimentos responsáveis pelo surgimento do estilo guerreiro, sanguíneo com que o Grêmio joga futebol e que, de certa forma, está enraizado dentro do espírito de cada gremista.” 
(Texto: Márcio Neves da Silva, Assessoria de Comunicação Social )


 

A Batalha de La Plata
A inesquecível Batalha de La Plata mereceia um capítulo todo especial para contar esta trajetória que levou o Grêmio a seu primeiro título sul-americano.

Fatores muito além do futebol estiveram envolvidos na partida decisiva do dia 8 de julho de 2008 na cidade argentina de La Plata.

O país vizinho vivia a realidade da guerra das Malvinas contra a Inglaterra. A inferioridade diante do exército bretão atingia em cheio uma das mais exacerbadas características do povo argentino: o orgulho.

Em meio a tudo isso, surgiu a notícia de que aviões ingleses haviam recebido auxílio do Brasil possibilitando que pousassem na Base Aérea da cidade de Canoas para reabastecimento. A informação, procedente ou não, revoltou os argentinos justo às vésperas do Grêmio desembarcar no país.

Com pouco tempo de descanso após a vitória da quarta-feira contra o América, a delegação optou por mudar o vôo para a capital portenha: ao invés de descer no aeroporto de Ezeiza, na grande Buenos Aires, o grupo preferiu o vôo com escala em Montevidéu e pouso no Aeroparque, quase no centro da cidade. Por incrível que pareça, o Grêmio ganhou duas horas a mais chegando ao hotel por volta das 20h ao invés das 22h como apontava a programação anterior.

Líder do grupo, o Grêmio desembarcou em La Plata com 4 pontos ganhos contra 2 pontos de América e Estudiantes. A vitória garantia o Tricolor na grande decisão da Libertadores. Um empate, por sua vez, deixaria o Grêmio dependente da última partida da fase entre América e Estudiantes, na Colômbia.

As hostilidades começaram antes mesmo do ônibus que levava a delegação estacionar ao lado do acanhado estádio Jorge Luis Hirschi. Várias pedras atingiram o veículo. Jogadores e dirigentes tiveram dificuldades para entrarem no vestiário.

Já no gramado, a pressão e as hostilidades vinham de todas as partes: cânticos racistas contra brasileiros e torcedores atirando pedras.

Antes do início da partida, o árbitro uruguaio Luis de La Rosa (que substituiu Martinez Basan em cima da hora) apresentou cartão amarelo para o atacante Trobbiani. Uma pequena amostra do que ele viria a enfrentar durante os 90 minutos.

Com a bola rolando, o Estudiantes buscava tirar proveito de todos os fatores locais: com uma agressividade descontrolada, distribuíam patadas nos brasileiros e pressionavam a arbitragem.

Aos 32 minutos, China cometeu falta em Trobbiani e foi chutado pelo argentino. O árbitro apresentou cartão vermelho para o atleta do Estudiantes e amarelo para o gremista. Revoltados com a decisão, os jogadores do time dono da casa passaram a empurrar o árbitro até que Ponce também foi expulso.

Mesmo com dois jogadores a menos em campo, foram os argentinos que abriram o marcador justamente na cobrança da falta que originou toda a confusão. Gugnale aproveitou falha da defesa tricolor e chutou forte na saída de Mazarópi. Eram 38 minutos.

Tocando bem a bola no péssimo gramado, o Grêmio chegou ao empate aos 44: Osvaldo, pela esquerda, chutou cruzado de dentro da área. 1 a 1.

A violência dos jogadores argentinos seguiu até mesmo durante o intervalo da partida. No túnel que levava os jogadores aos dois vestiários, o atacante Caio foi agredido com socos e chutes tendo fratura da tíbia. César voltou para o segundo tempo em seu lugar.

E foi o mesmo César que virou o placar para o Grêmio aos 8 minutos. Grêmio 2 a 1.

Logo após o Estudiantes ter mais um jogador expulso, Renato desceu em velocidade pela direita, driblou dois adversários e chutou na saída do goleiro. Grêmio 3 a 1 aos 18 minutos.

Aos 31 minutos, Gurrieri marcou o segundo gol dos argentinos para delírio da torcida.

Completamente descontrolados, os jogadores se atiraram com tudo para frente acuando os gremistas.

Logo depois, o Grêmio chegou ao quarto gol que foi inexplicavelmente anulado por um impedimento inexistente de Osvaldo.

Faltando apenas quatro minutos para o final, Russo conseguiu o que parecia impossível: o gol do empate.

O resultado trouxe de volta um pouco do orgulho argentino e impossibilitou ao Grêmio a classificação para a final de forma antecipada.

Mais do que a vergonha de ceder o empate contra apenas sete jogadores em campo, para o Grêmio restou o consolo de deixar La Plata com vida.

O Tricolor passou a depender de pelo menos um empate do eliminado América de Cali contra este mesmo Estudiantes para garantir vaga na final.

Fábio Koff tratou de trabalhar nos bastidores. (Site do Grêmio)

Depoimento do Valdir Espinosa sobre o jogo:

Na Libertadores de 83,um dos jogos mais difíceis foi em La Plata ,jogando contra o Estudiantes. Muito mais do que as dificuldades de campo ,o clima de guerra que envolveu aquela partida ,nos fazia temer por nossas vidas ,receando não sairmos sãos e salvos de lá!
O jogo ,só para lembrar,estava 3×0 para nós e o Estudiantes com apenas 7 jogadores,conseguiu empatar. Mas isto é assunto para outro dia ,pois o que quero é relatar os acontecimentos do intervalo do jogo.
Terminado o primeiro tempo, as 2 equipes foram para os vestiários .Este caminho era tão estreito que obrigava-nos a andar em fila indiana. Do campo até o vestiário ,muitos gritos e xingamentos. Entramos ,fechamos a porta e o nosso segurança encostado nela ,disse:

-“Fiquem tranquilos, que aqui ninguém entra”
Enquanto os jogadores tomavam água, lavavam-se e trocavam o material molhado ,a porta parecia que viria abaixo com pancadas de socos e pontapés. E o nosso segurança, encostado na porta já com os braços abertos, continuava afirmando:
-“Tranqüilos! Aqui ninguém entra”!
Jogadores sentados para ouvirem as instruções do intervalo. Começo ,então,a falar e quando vou corrigir o ataque , pergunto:
-“Cadê o Caio”?
Todo mundo se olha ,observa o vestiário e…nada do Caio! Então ,imediatamente olhamos para o segurança e eu grito:
-“Abre esta porta”!!!
Nosso Super-Homem abre e quem entra? O Caio! Chorando ,com o tornozelo inchado e cheio de hematomas pelo corpo. Ele havia ficado para trás, e durante todo aquele tempo em que batia na porta, estava apanhando dos argentinos! Seu tornozelo estava tão inchado ,que tive que substituí-lo no intervalo.
Como voces podem ver ,nosso segurança realmente não deixou ninguém entrar, nem mesmo o Caio!” (Valdir Espinosa)

CAIO: “Foi incrível. Algo que eu jamais poderia imaginar que fosse acontecer, apesar do clima de guerra que havia lá. Eu ia para o vestiário, quando fui cercado por três jogadores, que passaram a me agredir. Levei um chute tão forte no tornozelo que não pude voltar para o jogo e não está dando nem para caminhar direito. Dói muito. Não dá pra aceitar um túnel apenas para os dois times e também para o árbitro. É incrível isso, reclama Caio.

 
Reportagem do Jornal Clarin sobre os 20 anos daquela partida nesse link. Destaque-se as declarações do hoje treinador Miguel Angel Russo sobre aquele jogo:

Fue el partido que más grabado me quedó en toda mi carrera. Mirá que salí campeón varias veces, pero aquella noche fue incomparable, imborrable” (Russo)
“El Gremio pasó de ronda y ganaron todo, Libertadores e Intercontinental. Yo estoy convencido que si pasábamos nosotros, Estudiantes era otra vez campeón de la Libertadores” (Russo)


 


Fontes: Correio do Povo, Folha da Tarde, Grêmio.net, Placar e Zero Hora

Estudiantes 3×3 Grêmio

ESTUDIANTES: Bertero; Camino, German (Teves), Aguero, Gugnali, M.A. Russo, Sabella, J.D. Ponce, Trama, Trobbiani e Gurrieri
Técnico: Eduardo Manera

GREMIO: Mazaropi, Paulo Roberto, Leandro, De Leon, Casemiro, China, Osvaldo, Tita, Renato, Caio (César), Tarciso (Tonho)
Técnico:Valdir Espinosa
Reservas: Beto, Newmar , Róbson, Tonho e Cesar


Triangular semifinal – 4° jogo – Libertadores 1983

Data: 08 de Julho de 1983, sexta-feira, 22h00min
Estádio: Jorge Luis Hirschi, em
La Plata (Argentina)
Juiz: Luis de la Rosa (Uruguai), 
Auxiliares: Ramón Barreto e Artemio Sension
Cartão Vermelho: Ponce e Trobbiani aos 33 do 1ºt; Camino aos 24 e Tevez aos 30 do 2ºt
Gols: Gurrieri aos 39min, Osvaldo aos 45 do 1ºtempo ; César aos 7, Renato aos 18, Gurrieri aos 31 e Gugnali aos 42 do 2º tempo.

2 Responses to “30 anos da Libertadores de 1983 – Estudiantes 3×3 Grêmio”

  1. Anonymous Says:

    detalhe a coluna do santanna, quem te viu, quem te vê, hehehe

  2. Unknown Says:

    Épica jornada tricolor no Curral Jorge Luis Hirschi.

    O depoimento do Espinosa é tragicômico.

    Melhor manchete: “Foi melhor empatar e voltar vivo”.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s


%d bloggers like this: