Biometria – Cadastramento é um sucesso?

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diogo olivier zh 2018 09 26

Em 26 de setembro de 2018, Diogo Olivier escreveu o seguinte texto na sua coluna na Zero Hora:

BIOMETRIA – Exatos 23.809 gremistas já deixaram suas digitais no processo de biometria definido em acordo com o Ministério Público (o Inter também é signatário do termo) para facilitar a identificação de eventuais brigões. O cadastramento é um sucesso e segue a pleno, especialmente em dia de jogo. A biometria é um dos temas que motivaram a bronca da Geral com Romildo Bolzan Jr.. O presidente devolveu o boicote da torcida no Gre-Nal do Beira-Rio proibindo a banda na Arena. Líderes de organizadas, de Norte a Sul do país, claro, querem distância do MP”

Há uma série de afirmações e ilações sem fundamento nesse pequeno parágrafo:

  • 1) Não há nenhum elemento factual para afirmar que o “cadastramento é um sucesso”. Obviamente o colunista não inventou que 23.809 pessoas foram cadastradas. Alguém do Grêmio, Arena ou Ministério Público lhe informou esse dado. Ocorre que o número, isoladamente, não comprova nada. Ou melhor, comprova que 23 mil pessoas fizeram cadastro. Não diz se essas pessoas são sócias do clube ou se efetivamente foram na Geral depois de feito o cadastro. Não diz se ajudou a reduzir episódios de violência dentro do estádio (que sempre foram bastante raros). E não diz se medida, por seu caráter draconiano, não acabou criando outros tipos de problemas. 

    Ao menos um desses problemas é inegável. O aumento das filas para ingressar nos portões que dão acesso à arquibancada norte (existe um perfil no twitter que documenta essa questão). Uma das grandes melhorias na mudança do Olímpico para Arena foi o acesso para dentro do estádio e essa medida da biometria implica em grave retrocesso nesse aspecto.

    Ademais, é razoável questionar o esvaziamento de público no setor. Dados completos que atestem isso são de difícil obtenção, porque o Grêmio não divulga os borderôs de competições internacionais e nos borderôs das competição nacionais/estaduais o número de sócios patrimoniais/contribuintes presente nos jogos não costuma ser separado por setor, de maneira que dificilmente saberemos o total de torcedores presentes na arquibancada norte em cada jogo.

    Todavia, temos alguns elementos que podem dar indícios desse esvaziamento. O setor Arquibancada Norte costumava ser  o que tinha ingressos esgotados mais rapidamente. Depois da Biometria isso mudou completamente. Como exemplo, podemos comparar Grêmio X Rosario Central pelas oitavas da Libertadores de 2016, com menos de 32 mil pagantes onde os ingressos para a Geral se esgotaram em pouco mais de um dia, enquanto em Grêmio X Estudiantes pelas oitavas da Libertadores de 2018, com mais de 45 mil pagantes, quando nem todos os ingressos de geral foram vendidos

    Poderíamos pegar também o último jogo em casa, contra o Ceará, às 11 de um domingo, com 36 mil pagantes, onde foram vendidos 2.143 ingressos (para sócio-torcedor diamante, ouro e torcida em geral) para a Arquibancada Norte, enquanto, num jogo equivalente em 2016, Grêmio X Figueirense, igualmente às 11h de um domingo, com 34 mil pagantes, foram vendidos 3.996 ingressos para a geral. (Não fosse isso o bastante, bastaria comparar as fotos dos dois jogos publicadas pelo Ducker para ver a diferença de lotação do setor nesses dois jogos.)

    A segurança nos estádios não pode ser um fim em si mesmo. Deveria servir para melhorar a experiência de quem vai no estádio e aumentar o público presente. Quando isso não verifica, é de se questionar se a medida em questão é mesmo um sucesso. Isso sem adentrar no seu caráter discriminatório, uma vez que se destina a um único setor do estádio, justamente o mais popular.

  • 2) A comparação com o acordo feito entre o Ministério Público e Internacional é despropositada. No Beira-Rio somente os membros de torcidas organizadas são submetidos à biometria. Na Arena, QUALQUER torcedor que deseje ir na Arquibancada Norte precisa obrigatoriamente enfrentar a biometria.
  • 3) Igualmente descabida é a ideia do presidente ter “devolveu o boicote”. A palavra boicote não condiz com a forma que o Presidente Romildo vem conduzindo os assuntos do Grêmio. E nenhuma relação entre torcida e presidente de clube pode funcionar na base de boicotes.

Já disse aqui no blog que a biometria, se não é diretamente inspirada, certamente encontra precedente/paradigma no National Membership Scheme (NMS) proposto pelo Governo Thatcher na Inglaterra em 1988. O Guardian descreve o NMS como um “projeto deploravelmente mal concebido“, enquanto o Telegraph o caracteriza como um “esquema inviável, de legitimidade questionável quanto aos direitos civis“. Essa proposta foi abandonada após a publicação do Taylor Report (Lord Justice Taylor trata de tema a partir do parágrafo 377 do seu relatório)

Em suma, o Taylor Report conclui que  o uso de um cadastramento obrigatório proposto pela Primeira Ministra Margareth Thatcher como medida para coibir a violência equivaleria a “usar uma marreta para abrir uma noz”

Não obstante essa brilhante síntese, o Lord Justice Taylor esmiúça diversas questões problemáticas relacionadas a proposta. Muitas delas me parecem se aplicar ao cadastro biométrico proposto pelo Ministério Público. Tentei, numa tradução livre, transcrever algumas delas abaixo:

taylor 380 382

Risco já existente de congestionamento
380. Congestionamentos do lado de fora das catracas e as consequentes lesões ou desordem são riscos já conhecidos. Esses riscos são aumentados pelo número limitado de catracas disponíveis e pela capacidade limitada para aumentar sua quantidade em diversos estádios antigos. Os riscos são igualmente aumentados pela entrada tardia de grande parcela do público, o que é uma ocorrência comum.

381. Durante os movimentados 20 minutos antes do apito inicial, filas, ou por vezes uma multidão de torcedores, tende a se acumular. Se a passagem pelas catracas é atrasada ou diminuída, esse acúmulo aumenta e a pressão retarda ainda mais o funcionamento das catracas. O próximo estágio é aquele em que os que estão esperando ficam impacientes, temendo que não irão entrar antes do começo da partida. O barulho do estádio, comprovando que os times estão entrando em campo, aumenta a impaciência. Reside aí um fundado perigo de pressão em direção as catracas, ocasionando lesões e pânico ocasionando desordem. Foi isso que aconteceu em Hillsborough. […]

Tempo extra para checar os cartões
382. Esses riscos já existiam sem o sistema nacional de cadastro. Uma vez que o sistema exige que todos os espectadores que estão passando pelas catracas apresentem seus cartões de identificação para verificação/checagem, é inevitável que algum tempo extra seja acrescido para cada espectador

taylor report 398

“Além disso, o esquema pode causar perigosas acumulações caso a tecnologia falhe completamente ou caso a tecnologia não funcione no ritmo esperado”

taylor 415 419
415. Eu já constatei que o hooliganismo dentro do estádio foi reduzido, principalmente pelas câmeras de vigilância, mas se transferiu para o lado de fora do estádio.
[…]

416. Isso, juntamente com outros dados/provas policiais que eu recebi, demonstra que, embora o futebol de maneira geral, e a partida, em particular, proporcionem a ocasião e o ponto focal para as ações dos hooligans, muitos hooligans não consideram essencial entrar no estádio. Eles precisam da junção de multidões e a rivalidade interclubes ou animosidade da partida para estabelecer o cenário para a sua violência. Eles não precisam do futebol propriamente dito.

[…]

417. Eu temo que seja puro devaneio/pensamento mágico presumir que os hooligans proibidos de ingressar nos estádios, não irão, se livres para tanto, aparecer e criar problemas no lado de fora, em bares e nas ruas.
Seria surpreendente se os hooligans descritos no grupo I do Sr. Juiz Popplewell (parágrafo 48 acima) abandonassem totalmente suas atividades de acossamento e agressão dos torcedores visitantes tão somente por que eles não podem mais entrar no estádio.

[…]

419. Portanto eu tenho sérias dúvidas se o esquema irá atingir seu objetivo de eliminar os hooligans de dentro dos estádios. Eu tenho dúvidas ainda mais sérias se irá atingir seu objetivo adicional de acabar com o hooliganismo fora dos estádios. De fato, eu não creio que irá. Eu temo que, ao menos em curto prazo, talvez até aumente a confusão fora dos estádios.

Enfim, é uma pena que estejamos sendo submetidos a medidas feitas “para inglês ver” e deixando de ver o que os ingleses já fizeram.

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