Brasileirão 1993 – Fluminense 0x1 Grêmio

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Foto: Silvio Avila (Zero Hora)

No Brasileirão de 1993 o Grêmio venceu o Fluminense no Maracanã, por 1×0, com gol do centroavante Charles. Três  coisas sobre este jogo.

Colunistas dos jornais de Porto Alegre vaticinavam a queda do Felipão em caso de derrota. Ainda bem que a história foi outra.

– Na minha memória o time do Grêmio não era esse desgraça toda que as crônicas transcritas abaixo descrevem. Essa equipe lutou de igual pra igual com o São Paulo na Supercopa (time que viria a ganhar o torneio e o mundial no fim do ano) e diversas jogadores teriam grande futuro no clube.

– Eu ignorava essa história de que o presidente do Flu sugeriu que os seus jogadores assistissem Tom & Jerry para relaxar. O folclore do futebol nacional é inigualável.

Foto: Silvio Avila (Zero Hora)

GRÊMIO VENCE E SOBE PARA TERCEIRO
O time gaúcho não atuou bem, mas garantiu mais dois pontos e recuperou a calma para o jogo contra o Peñarol

Rio — Mesmo errando passes e jogando um futebol pouco convincente, o Grêmio contornou ontem uma crise cujo perfil vinha se desenhando desde a derrota para o Santos, passando pelo empate contra o Atlético-MG e tornando-se iminente em Montevidéu, quando o time perdeu para o Peñarol. Os jogadores saíram do Maracanã sorrindo, mas transparecendo preocupação com a atuação discreta. A vitória por 1 a O sobre o Fluminense ocorreu muito mais devido às deficiências do adversário — cujos torcedores passaram a maior parte do tempo gritando palavras de ordem contra os dirigentes —, do que por méritos da equipe gaúcha.

O presidente Fábio Koff foi enfático, no intervalo do jogo. “O Luís Felipe continuará treinando o Grêmio até o final do campeonato, mesmo que perca hoje”, disse. Em campo, o time apresentava deficiências reconhecidas pelo próprio técnico que, preocupado com o desperdício de oportunidades, conversará durante esta semana com os seus atacantes. “O trabalho dele é muito bom”, opinou Koff.

Em 14 partidas, foi a segunda vez que o time de Luís Felipe terminou o jogo sem levar gols. Contra o Atlético-MG, no Mineirão, a partida ficou no 0 a 0. Dos 15 gols sofridos, grande parte ocorreu no final do segundo tempo. Desta vez, marcando aos 12 do primeiro, o resultado foi mantido. Coincidência ou não, o goleiro Danrlei — cada vez mais seguro — e o centroavante Charles — que tem habilidade para segurar a bola — se destacaram.

Luís Felipe, reconhecendo um sentimento de alívio, disse que o time agora está sabendo administrar resultados. “Houve uma colocação melhor dos dois volantes com os zagueiros”, explicou.”

MELHORES LANCES
Primeiro Tempo
12 minutos: Jamir arremata forte de fora da área, a bola sobra para Charles que livra-se de dois zagueiros, chuta e faz Grêmio 1 a 0.
14 minutos: Charles passa de calcanhar para Dias que chuta fraco nas mãos do goleiro Nei.
26 minutos: Julinho é lançado na área, toca por cima de Danrlei, mas adianta-se demais e acaba devolvendo a bola para o goleiro do Grêmio.
27 minutos: Branco cruza da esquerda, Charles ajeita para Dias que chuta no goleiro.
36 minutos: Dias é lançado na direita e chuta fraco, fácil para a defesa de Nei.
37 minutos: Carlos Miguel cobra escanteio da direita, Paulão cabeceia, a bola passa perto de Charles e sai para fora.

Segundo tempo
Sete minutos: Branco cobra falta da direita e o goleiro Nei, bem colocado, pega fácil.
19 minutos: Serginho tabela com Julinho que toca para Nilson chutar forte e obrigar o goleiro Danrlei a fazer urna defesa difícil.
23 minutos: Moreno cruza para Nilson cabecear fraco nas mãos de Danrlei.
26 minutos: Branco cruza da esquerda, Caio cabeceia e Nei pega firme.
28 minutos: Grotto cobra falta da direita, Caio toca para Dias que chuta para fora.
38 minutos: Carlos Miguel lança Caio que toca para Charles chutar forte na zaga do Fluminense.
44 minutos: Julinho recebe um boto lançamento pela esquerda, invade a área, mas demora para concluir e Grotto consegue aliviar.
45 minutos: No contra-ataque, Caio escapou pela direita mas o cruzamento moa imperfeito.” (Léo Gerchmann, Zero Hora, segunda-feira, 11 de outubro de 1993)

 

Foto: Silvio Avila (Zero Hora)

FLU LEVA TORCIDA AO DESESPERO
Derrota para o Grêmio no Maracanã mostra que time precisa de mudanças

A derrota de 1 a 0 (Charles) para o Grêmio, no Maracanã, mostrou mais uma vez que alguma coisa precisa ser feita no Fluminense. O time é fraco tecnicamente, não tem qualquer prestígio junto a seus torcedores e está ameaçado de não passar para a segunda fase do Brasileiro. O jogo com a equipe gaúcha irritou os 22% pagantes. O retrato da partida aconteceu exatamente no primeiro tempo, com boa parte da torcida hostilizando o presidente Arnaldo Santiago, que assistia ao jogo da Tribuna Especial.

O time gaúcho começou mais aplicado taticamente. Organizado no meio campo, o Grêmio chegava fácil à área do Fluminense. Logo aos 12 minutos, Jamir chutou de fora da área, a bola bateu em Alaércio e, no rebote, Charles dominou e tocou na saída do goleiro Nei. 1 a 0, merecidamente. Confuso, o time tricolor não passava de sua intermediaria, nem tentava a reação. A pouca criatividade saía dos pés de Julinho. Mas era muito pouco para quem precisava muito da vitória para se reabilitar no Brasileiro e diante de sua torcida.

A partir dos 20 minutos, o jogo ficou lento, chegou a ser sonolento e começou a irritar os torcedores. O meio campo do Fluminense não conseguia chegar à área do Grêmio nem encostar nus atacantes Ézio e Nilson, que voltavam para buscar jogo. Do outro lado, normalmente o apático Dias surpreendia com boas jogadas pela direita em velocidade. Fabinho e Charles, se fossem mais aplicados e apostassem mais nas jogadas disputadas, principalmente dentro da área, teriam feito mais gols. A defesa do Fluminense esteve muito mal na partida.

O intervalo parece que fez bem ao time carioca. O Fluminense voltou mais organizado e disposto a empatar o jogo. O Grêmio, por sua vez, voltou desinteressado e determinado a garantir o resultado de 1 a 0, o que fez com que o nível técnico, que já era ruim, piorasse. Aproveitando-se disso, o Fluminense tentava alguma coisa, com Julinho, Nilson e Ézio, que rondavam a área adversária, com jogadas cm velocidade e chutes fortes que esbarravam no bem colocado goleiro Danrley.

Mas não era dia do Fluminense. Aliás, a época é uma das piores para o tricolor das Laranjeiras. Além das dificuldades técnicas de sua equipe, o Fluminense ainda teve problemas com o juiz Oscar Roberto Godoy, que inventou e inverteu faltas, e ainda não deu um pênalti a seu favor aos 34 minutos, quando Celinho foi puxado pela camisa por Aguinaldo. Todo mundo viu menos o árbitro. Haja paciência para agüentar tanta mediocridade não só dos jogadores, como do trio de arbitragem.

PRINCIPAIS LANCES
Primeiro tempo
2 minutos — Jamir lança Carlos Alberto Dias dentro da área e o jogador chutou mal, por cima do travessão do goleiro Nei.
12 minutos — Gol — Grêmio 1 a 0: Jamir chuta e a bola bate em Alaércio, sobrando para Charles. O centroavante ganha na velocidade da zaga ao invadir a área e desloca o goleiro tricolor.
14 minutos — Charles faz boa jogada e toca para Dias na esquerda. O meia chuta forte, e Nei defende parcialmente. Márcio despacha para córner.
26 minutos — Chiquinho lança Julinho, que dá um lençol em Danrley. Na jogada, porém, o tricolor adiantou a bola e perdeu o ângulo para concluir para o gol vazio. Julinho ainda toca para o meio, mas o goleiro consegue segurar a bola.
36 minutos — Carlos Alberto Dias recebe passe preciso de Carlos Miguel, penetra livre na área, chuta forte, mas Nei faz grande defesa.
41 minutos — Chiquinho, de fora da área, dá o primeiro chute do Fluminense ao gol, mas a bola sai por cima do travessão

Segundo tempo
7 minutos — Branco cobra falta pelo lado direito do ataque. O chute sai forte, mas Nei faz mais uma bela defesa.
19 minutos — O Fluminense faz uma boa jogada. Serginho passa para Julinho, que lança Nilson, livre. O centroavante acerta um belo chute, rasteiro. Danrley se estica todo e coloca a bola para fora.
26 minutos — Carlos Miguel cobra escanteio, da esquerda, e Caio sobe e cabeceia livre de marcação. Nei defende mais uma bola perigosa.
34 minutos — Celinho é lançado dentro da área, dribla o zagueiro Agnaldo e vai em direção ao gol. Porém, o defensor segura o atacante pelo calção e o juiz manda o lance seguir: a zaga despacha.
38 minutos — Caio recebe no meio campo, vira o jogo e lança Charles pelo lado direito. O atacante penetra sem qualquer marcação e dá um forte chute. Brasília, que se recuperou no lance, desvia para escanteio.” (Edir Lima, Jornal dos Sports, segunda-feira, 11 de outubro de 1993)

 

Foto: Uramar de Assis (Jornal dos Sports)

 

A TORCIDA NÃO AGUENTA MAIS
Tricolores ofendem presidente do Fluminense, que assiste cercado por seguranças a mais um vexame dos cariocas no Brasileiro.

Paciência tem limite. E a do torcedor carioca se esgotou. Cansados de seguidos vexames e derrotas em casa, os poucos apaixonados que ainda vão aos estádios se revoltam contra os cartolas. Ontem, enquanto o péssimo time do Fluminense perdia para o Grêmio por 1 a 0,os torcedores desviavam suas atenções para a tribuna do Maracanã. Afinal, lá estava quem, para eles, é o responsável pelos fiascos: o presidente Arnaldo Santiago.

Foi o desfecho de mais um fim de semana de fracassos para os times do Rio. O menos ruim foi o Flamengo, que empatou em 1 a 1 com o Bahia, sábado, no Maracanã. Enquanto isso, o Botafogo perdia por 3 a 0 para o Cruzeiro em Belo Horizonte, completando um turno ou 10 horas e meia sem gol, e o Vasco sofria com os 2 a 0 impostos pelo Palmeiras, em São Paulo. Dos quatro cariocas no Campeonato Brasileiro, apenas rubro-negros e vascainos ainda brigam pela classificação. Botafogo e Fluminense já pensam em 94.

É verdade que a torcida tricolor exagerou, com palavrões e ofensas pessoais ao presidente, mas a reação deixou clara a impaciência geral. O médico Arnaldo Santiago, que durante a semana sugeriu a exibição de desenhos de Tom e Jerry para relaxar os “tensos” jogadores do time, passou quase todo o jogo cercado por seguranças, e sendo ofendido tanto por quem pagou CR$ 500 pelo ingresso de arquibancada como por quem desembolsou CR$ 5 mil pela cadeira especial. Ao final, foi o primeiro a sair, assustado. Não há desenho animado capaz de acalmar a sofrida torcida do fluminense.”

 

 

E A VITÓRIA DO MENOS RUIM

O Fluminense perdeu. De novo. Foi a quinta derrota em oito jogos pelo Campeonato Brasileiro, quarta consecutiva, terceira seguida no Rio. E o adversário de ontem não era grande coisa. O time que o Grémio trouxe ao Maracanã só não saiu com zero porque esta nota foi exclusiva do tricolor carioca. Do gol de Charles, aos 12 minutos de partida, ao apito final, o Fluminense praticamente não ameaçou empatar, mostrando aos menos de 2,3 mil torcedores que pagaram ingresso que, hoje, sair de casa para ver a turma da camisa tricolor em ação é aborrecimento garantido.

Impacientes, os torcedores pediam time e cantavam os já desgastados corinhos antes mesmo de a bola rolar. De todos, o mais ouvido era: “Não é mole não! São oito anos sem gritar é campeão”. O jogo em si, era de irritar. Passes errados, chutões e encontrões estilo pastelão rechearam os 90 minutos. Até o gol da vitória gaúcha foi conseqüência de lance casual. Jamir chutou — mal —, a bola tocou na zaga e sobrou para Charles. O centroavante entrou como quis para fazer 1 a O. quebrando um jejum. Há três jogos os gremistas não balançavam as redes adversárias.

Na melhor chance do Fluminense. Julinho tocou sobre Danrlei, mas a bola tinha endereço errado e ia saindo. O meia correu e se esticou para alcançar a bola, puxando-a de volta, só que nas mãos do goleiro. Alguns riam e outros quase choravam. De raiva. Um lance tragicómico. Depois, só um chute de Nilson, aos 19 minutos do segundo tempo, assustou a defesa gaúcha. Danrlei tocou para córner. Como o Grêmio estava mais do que satisfeito com a magra vitoria, apesar da mediocridade do Fluminense, a partida foi-se arrastando até o fim. Por sinal, se não tivesse começado ninguém sentiria falta.” (Mauro Cezar Pereira, Jornal do Brasi, segunda-feira, 11 de outubro de 1993)

 

Foto: Alaor Filho (Jornal do Brasil)

 

O JOGO: Se o Grêmio não fosse tão limitado tecnicamente teria goleado o “bando” de jogadores que veste a camisa do Flu neste Campeonato” (Tabelão Placar, 1993)

 

FLUMINENSE: Nei; Márcio, André, Brasília e Alessandro; Alaércio, Chiquinho (Serginho, intervalo) e Julinho; Nilson e Ézio (Celinho, 30 do 2ºT) e Moreno.
Técnico: Nelsinho Rosa

GRÊMIO: Danrlei; Grotto, Paulão, Agnaldo Liz e Branco; Pingo, Jamir, Carlos Miguel e Carlos Alberto Dias (Marco Aurelio, 32 do 2ºT); Fabinho (Volnei Caio 25 do 2ºT) e Charles.
Técnico: Luiz Felipe Scolari

Brasileirão 1993 – 1ª Fase – Grupo B – 8ª Rodada
Data: 10 de outubro de 1993, domingo
Local: Maracanã, no Rio de Janeiro-RJ
Público: 2.296 pagantes
Renda: CR$ 1.139.900,000
Juiz: Oscar Roberto de Godoy
Auxiliares: Odair Godeghesi Junior e Altamirano Paulo Neto
Cartões amarelos: Grotto, Paulão, Alessandro, Alaércio
Gol: Charles, aos 12 minutos do primeiro tempo

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