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O último Gre-Nal da Baixada

November 28, 2012

 

Estamos na semana que antecede a última partida do estádio Olímpico. Não fosse isso um fato importante por si só, o jogo marca também o último clássico Gre-Nal na Azenha. Certamente será bem interessante poder vivenciar um evento histórico, um marco na história do clube.
Diante disso, eu me pergunto, o que efetivamente será lembrado desse evento nos próximos anos? O que será esquecido? O que aconteceu em situações parecidas com esta?
Pesquisando um pouco eu acabei encontrando fotos e uma crônica do último Gre-Nal disputado no estádio da Baixada. O jogo foi realizado em novembro de 1953, e foi vencido pelo Inter, que aquela altura já era campeão citadino. O evento em si parece não ter gerado maior comoção na época.
Eu confesso que fiquei um tanto surpreso com a Baixada retratada nessas fotos. Sabia que era um estádio acanhado (segundo o relato o campo estava lotado com pouco mais de 8 mil pessoas), mas além disso podemos ver claramente que as arquibancadas careciam de alguma manutenção (assim como também vemos um curioso placar manual e torcedores com sombrinhas). Talvez seja um retrato fiel da época; talvez não seja. E o que será que as pessoas iram “enxergar” daqui há 50 anos nas fotos do Olímpico?
“O SEGUNDO TENTO MARCADO PELOS RUBROS foi de autoria do winger esquerdo Canhotinho. Acima vemos um flagrante do Gre-Nal de ontem, apanhando justamente na metade do lance que terminaria nas redes de Sérgio. Canhotinho, que se vê à esquerda, aproveitou a oportunidade para consolidar a vitória de sua equioe. Na foto vê-se ainda Mirão, Sérgio, Hugo, Bodinho e Zé Ivo.” (Folha da Tarde Esportiva – 02 de novembro de 1953)

 

“Internacional Manteve a Invencibilidade!
A FALTA DE TÉCNICA NO GRE-NAL FOI COMPENSADA PELA COMBATIVIDADE DOS JOGADORES
 
Com o clássico Gre-Nal do foot-ball porto-alegrense, encerrou-se ontem o campeonato do ano em curso. As tradicionais dependências do “fortim” da Baixada apanharam, por esta ocasião, uma grande assistência, que as lotou completamente, em que pese a tarde cálida, que não animava o afeiçoado deter-se várias horas sob um sol causticante.
 
Não obstante, o velho campo da Baixada reviveu uma de suas horas mais animadas; pois o público, presente, como dissemos, em grande número, manteve-se sempre entusiasta e vibrante.
 
O match em si, como soe acontecer nos confrontos entre as equipes do Grêmio e do Internacional, não foi dos mais brilhantes, no que tange ao aspecto técnico. Mas não faltou combatividade aos jogadores, de modo que, em momento algum, o cotejo entrou em monotonia.
 
O E.C. Intenacional, que já ingressou em campo, com as honras de campeão, indiferente ao resultado do Gre-Nal, logrou triunfar mais uma vez, fechando assim com chave de ouro sua temporada oficial, durante a qual não sofreu nenhuma derrota. Encontrou ontem no Grêmio um adversário bem mais capacitado do que, no fundo, calculava; mas, mesmo assim, galgou bem o obstáculo, completando sua campanha com mais uma vitória, justa, sem dúvida, e merecida; tanto mais que seu adversário, superando-se a si mesmo, mais que lhe dignificou a conquista.
 
De fato, o Grêmio, que vinha de uma decepcionante derrota frente ao Cruzeiro, capacitou-se de sua responsabilidade, como participe nato do mais importante choque do foot-ball porto-alegrense, e, se bem não tenha conquistado a vitória, reabilitou-se em parte, atuando bem melhor do que nas vezes anteriores. Mormente sua defensiva, sem embargo das vezes que foi vencida, se constituiu num sector bastante sólido e eficiente, considerando-se ainda que atuou sem dois titulares: Orli e Pipoca. Pôde assim o quadro tricolor impor séria resistência aos comandos de Bodinho, fazendo que as ações durante grande parte da contenda se equilibrassem e desta maneira emprestassem ao clássico uma feição emocionante.
 
O Internacional fez jús á vitória particularmente por duas circunstâncias: contou além de uma defesa soberba e coêsa, com uma linha, que se bem menos brilhante, muitas vezes mesmo tolhida pelo adversário, foi suficiente prática para aproveitar as excassas opôrtunidades que se lhes ensejaram. E nisso vai o melhor elogio de um sector que encontrou difícil barreira pela frente mas, que a despeito disso, ainda fez prevalecer sua classe, construindo um triunfo laborioso, todavia brilhante.
 
Os primeiros cinco minutos do embate caracterizaram-se pelo equilíbrio das ações: ambos bandos alternaram-se na ofensiva, ensaiando estabelecer o primeiro predominio territorial. Numa de suas investidas, o Internacional marcou, mas o juiz anulou o tento por estar Jeronimo, seu autor, em posição ilegal. Sucedeu-se um período breve de mais insistência do Grêmio na ofensiva; mas o Internacional revidou energicamente, colocando em sério perigo o arco de Sérgio. Houve então uma fase de indecisão, durante a qual os dois teams não conseguiam firmar-se no ataque, em face do melhor trabalho das defensivas. A partir do 20º minuto, o Internacional passou a apresentar mais agressividade, controlando melhor as ações e ameaçando mais amiudamente o último reduto tricolor. Aos 32 minutos, Canhotinho,de pois de fintar Mirão, desejou atirar violentamente ao arco; mas falhou e o arremate se converteu num passe a Jeronimo, que recém ingressara na área: o insider encheu o pé e surpreendeu Sérgio, cujo salto sobre a bola foi tardo: estava marcado o primeiro tento da partida:
 
Internacional .. .. .. .. . 1
Grêmio .. .. .. .. .. .. ..  0
 
Depois da conquista desse goal, quando se acreditou que o Grêmio reagiria, viu-se pelo contrário, mais animado e tranquilo, o Internacional a aumentar o seu volume de ações, procurando a todo pano consolidar a vantagem com novo tento
 
Desta maneira, o restante do período pertenceu nitidamente aos rubros, cuja dianteira contudo, não obstante o maior número de investidas, não conseguia suplantar a vigilância dos defensores da Baixada.
 
Entretanto, aos 41 minutos, originou-se uma confusão diante do arco do Grêmio: Solis e Bodinho dela se aproveitaram, para alvejar, mas, em ambas oportunidades o couro foi devolvido, sendo que na segunda vez pelo arqueiro Sérgio, defendendo parcialmente: a bola derivou para a esquerda, onde Canhotinho, entrando oportunamente, entre dois defensores gremistas, logrou impulsionar a bola para dentro do arco estabelecendo o escore definitivo
 
Internacional .. .. .. .. . 2

Grêmio .. .. .. .. .. .. ..  0

 
No segundo período, viu-se o Internacional ainda predominando nas jogadas, durantes os primeiros minutos; mas a seguir o Grêmio repontou um pouco e carregou com alguma insistência sobre a área colorada. Nada de prática porém faziam os dianteiros do Grêmio, que não coordenavam as tramas, deixando-se desarmar pelos rubros com relativa facilidade. Camacho e Paulinho, ainda no início dessa etapa, machucaram-se, retirando-se ambos por alguns instantes da cancha. O atacante gremista contudo não mais conseguiu recuperar-se. foi deslocado para a ponta, onde passou a fazer mera figura. Jogou o Grêmio assim praticamente o restante do match com apenas dez homens válidos.
Podia por isso o Internacional, valendo-se dessa circunstância, assenhorar-se definitivamente do terreno e das ações, impondo ao adversário duro castigo. A dianteira colorada, porém, cada vez mais dominada pelos tricolores, não colaborou o suficiente para isso: de modo que o match foi-se arrastando, já agora com o Internacional mais preocupado em fazer passar o tempo, e conservar a vantagem inicial, do que mesmo alardear sua superioridade técnica.
 
Era virtualmente impossível, de resto, ao Grêmio, recuperar o terreno perdido; seu quinteto avançado já era uma peça nula, mas inoperante ficou depois que Camacho resumiu sua atividade a intervir em lances esporádicos .
 
O foot-ball, que já não era dos melhores, com  Internacional agora a conformar-se com os 2×0 e o Grêmio impossibilitado de reagir, decaiu ainda mais; e teria resvalado definitivamente para a completa pasmaceira, não fosse a ação enérgica e laboriosa de alguns elementos, que não deixaram o jogo “morrer” de todo.
 
Não se registrou porém nenhum contraste nessa segunda fase, findando o match com o placard da fase inicial: 2×0, pró Internacional.
 
Ao terminar o cotejo, os jogadores, dando bonita demonstração de cavalheirismo, abraçaram-se amigavelmente, encerrando-se assim com exemplar cordialidade mais uma página do clássico eterno: o Gre-Nal.
 
[…]
Foi juiz do prélio o sr. Fortunato Tonelli, que em geral marcou bem as faltas, com erros de pequena monta. As vezes, querendo resguardar sua autoridade, excedeu-se nas repreensões, desagradando a torcida e os jogadores. Mas conseguiu levar a bom termo sua espinhosa missão.
 
“Na preliminar, bateram-se os quadros de aspirantes das duas agremiações. Alardeando grande superioridade técnica, os rapazes do Grêmio levaram a melhor, por um escore que não refelete sua inconteste supremacia nas jogadas: 1×0  […] Ao encerrar-se o match, demonstrando cabalmente o inconveniente, injustificavelmente não repremido, de soltar rojões em campos de foot-ball, um deles estourou junto às vistas de um player gremista, somente por grande sorte não se registraram consequências lamentáveis.” (Folha da Tarde Esportiva – 2 de novembro de 1953)

 

Fotos: Folha da Tarde Esportiva – 2 de novembro de 1953

Grêmio 0x2 Internacional

GRÊMIO: Sérgio, Hugo e Noronha; Mirão, Laerte e Zé Ivo; Tesourinha, Bebeto, Camacho, Mujica e Torres
INTER: Milton; Lindoberto e Oreco; Paulinho, Salvador e Odorico; Luizinho, Solis, Bodinho, Jeronimo e Canhotinho
Data: 1º de novembro de 1953, domingo
Local: Baixada, em Porto Alegre-RS
Público: 8.955 (6.287 pagantes)
Renda: Cr$ 163.740,00
Árbitro: Fortunato Tonelli
Auxiliares: Belo e Sroka
Gols: Jeronimo aos 32 minutos e Canhotinho aos 41 minutos do primeiro tempo
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