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Gauchão 2000 – Grêmio 1×0 Internacional

June 7, 2020
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Foto: Paulo Franken (Zero Hora)

 

Há exatos 20 anos, o Grêmio vencia o Gre-Nal 346 no Olímpico, graças a um gol de Ronaldinho no final da partida.

O clássico era válido pela penúltima rodada do segundo turno da segunda fase do Gauchão de 2000 (O Caxias já estava garantido na final tendo vencido o primeiro turno).

O empate era mais interessante para os colorados, que estavam dois pontos a frente do tricolor. Pela minha lembrança o jogo foi pavoroso, tendo entrado para o folclore/história dos Gre-Nais unicamente em razão do lance que decidiu o confronto: Aos 44 minutos Ronaldinho cobrou falta com força, a bola desviou na barreira e foi morrer dentro do gol colorado.

O detalhe irônico é que nos dias que antecederam o jogo o goleiro Hiran anunciou/blefou que não iria pedir barreira nas cobranças de falta contra a sua meta, alegando que com isso iria tirar “o ponto de referência de Ronaldinho”. O jovem atacante gremista respondeu dizendo que a sua referência era o fundo da rede.

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Foto: Julio Cordeiro (Zero Hora)

VITÓRIA DA DECISÃO
Gol de Ronaldinho colocou o time na liderança do turno

Aos 45 minutos do segundo tempo, a torcida do Grêmio vibrou e a do Inter prendeu a respiração. Ronaldinho caminhou lentamente, bateu em curva, a bola desviou na barreira e entrou no ângulo esquerdo, garantindo a vitória de 1 a 0 no Gre-Nal de ontem à noite no Estádio Olímpico.

– Falamos tanto na barreira que ela acabou nos ajudando – ironizou o alegre Ronaldinho, lembrando a promessa do goleiro Hiran (com quem trocou a camiseta no fim da partida) de retirar a barreira em alguns lances de falta.

Com o resultado, o Grêmio assume a liderança do segundo turno (16 pontos ganhos) e só depende de outra vitória, contra o Caxias, sábado, independentemente do jogo do Inter (15 pontos) contra o Juventude, para garantir a vaga a decisão do campeonato. Em caso de empoe nos dois jogos, o Grêmio também fica com o título do returno

Foi a vitória pessoal de alguém predestinado. Durante todo o clássico, o Grêmio, que precisava vencer, teve um ataque absolutamente nulo. Tão nulo que o melhor lance do centroavante Amato, escalado para fazer gols, foi uma jogada típica de zagueiro, aos oito minutos do segundo tempo, quando salvou o lance na pequena área. O Inter, bem organizado no meio, firme na defesa, perigoso no ataque – foram dele as melhores chances de gol -, estava conseguindo um grande resultado e a vantagem para a última rodada. Até que Rodrigão fez a falta.

Ronaldinho marcou, vibrou, fez a torcida do Grêmio esquecer de todas as dificuldades enfrentadas no Gre-Nal e conduziu o goleiro Hiran a um inferno astral. Nas arquibancadas, os torcedores gozavam do goleiro, perguntavam se ele continuaria desprezando as barreiras. No gramado, os jogadores se abraçavam como se a vitória tivesse garantido algum título Tudo por causa de Ronaldinho.

– Foi sorte – disse o técnico Zé Mário.

Mas a quem a sorte costuma ajudar nestes momentos?

Depois do gol, não houve mais jogo nos três minutos restantes. As bolas sumiram, alguns dirigentes do Grêmio invadiram a pista atlética pedindo o fim da partida, enquanto Paulo Nunes e André brigavam a socos, antes de serem expulsos pelo árbitro Carlos Simon. Até ali, o Inter dera um bom exemplo de organização. Competente na defesa, firme no meio, rápido no ataque, principalmente no segundo tempo, quando Elivélton, aos 11 minutos, e Rodrigão, aos 23, em duas jogadas de Fabiano, perderam as maiores chances de gol da partida O Grêmio tinha sérias dificuldades. Estava tranqüilo atrás com a competência de Marinho, mas não achava soluções na frente. Seu melhor lance aconteceu aos 19 minutos do segundo tempo, quando Anderson bateu escanteio e acertou o travessão.

Assim, só mesmo alguém predestinado para decidir. Alguém como Ronaldinho.” (Mário Marcos de Souza – Zero Hora, 08 de junho de 2000)

Foto: Paulo Franken (Zero Hora)

RONALDINHO FAZ A DIFERENÇA
Ele marcou o gol da vitória cobrando uma falta, que bateu na barreira, atrapalhando Hiran. Vantagem agora é toda do Grêmio

Com um esquema de jogo mais consistente e de forte marcação, o Inter foi melhor que o Grêmio e merecia o empate que o deixaria como favorito para disputar a final do Gauchão, mas um time que tem Ronaldinho guarda uma reserva técnica inestimável. E foi Ronaldinho, que até nem fazia boa partida, quem acabou revertendo tudo ao marcar o gol da vitória gremista no Olímpico, aos 45 minutos do segundo tempo, cobrando falta na entrada da área.

A bola desviou na barreira, enganando Hiran. A partir daí o Gre-Nal transformou-se em uma guerra, não faltando sequer uma briga a socos entre Alex e Paulo Nunes já nos acréscimos. Houve invasão de campo e por pouco a briga não envolveu outros jogadores.

Antes do gol de Ronaldinho, o que se viu foi um clássico em que o Grêmio insistia na troca de passes para buscar o gol, enquanto o Inter explorava os contra-ataques, especialmente com Fabiano, o melhor do jogo. Outro destaque foi Marinho. Paulo Nunes, que pouco antes da partida havia pedido para Antônio Lopes, para ser escalado como titular, entrou no segundo tempo no lugar de Amato e foi expulso após envolver-se em uma briga escandalosa com o lateral Alex. Lopes considerou a atitude de Paulo Nunes como infantil e desnecessária.” (Correio do Povo, 8 de junho de 2000 – Fonte: Grêmio Dados)

Foto: Fernando Gomes (Pioneiro)

MENOS DO QUE SE PENSA

Quem vê o Olímpico assim do alto muitas vezes não entende como a capacidade de público pode ser tão reduzida, como costumam mostrar os borderôs de jogos importantes. É que o estádio do Grêmio tem uma série de limitações.

Para o Gre-Nal da próxima quarta-feira, por exemplo, serão vendidos apenas 26.100 ingressos – 25.080 menos do que a capacidade do estádio.

Os demais lugares são ocupados por sócios, dependentes, menores, proprietários de cadeiras cativas e de camarotes. Mas não todos. Por medida de segurança, do clube e da Brigada Militar, os espaços não são inteiramente ocupados.

É por isso que, muitas vezes, quando ouve a informação sobre público no estádio, o torcedor se surpreende.” (Mário Marcos de Souza, Zero Hora, junho de 2000)

Os ingressos para o Gre-Nal estão esgotados – as alternativas são os cambistas. Foram colocados à venda 27.083 ingressos, divididos assim:

Olímpico – 12.896

Beira-Rio – 5.687

Postos de venda de Zero Hora – 8.500” (Zero Hora, 7 junho de 2000)

 

Gênio? Ele cobra uma falta, e a bola bate na barreira e desvia. Isso é ser genial? Então, eu sou cego, burro ou louco – desdenhou o paraguaio.

[…]

Falaram que do outro lado havia um gênio. Não vi. Gênio tem de fazer as coisas acontecerem. Ronaldinho é um bom jogador, mas não é melhor do que o Fabiano – cutucou Enciso.” (Zero Hora, 09 de junho de 2000)

POR QUE O ATACANTE CHOROU?

Confusão instalada no final do Gre-Nal. Sopapos, empurrões e xingões rolavam soltos entre os jogadores da dupla. Nervoso com a situação, Fabiano transformou sua raiva em lágrimas. Foi a forma, segundo ele, de não partir para a agressão de um adversário.

– Fiquei supernervoso com tumulto. Não consegui segurar e chorei, para extravasar – Justificou ele, que ontem arrastava a perna direita devido a dores causadas pelas faltas que levou durante o Gre-Nal.

Fabiano, no entanto, não foi exatamente um anjinho em campo. As câmeras de televisão mostraram duas agressões do atacante, um soco e um pontapé, no lateral Anderson.” (Zero Hora, 09 de junho de 2000)

Foto: Mauro Vieira (Zero Hora)

O FIASCO DOS BRIGÕES

Foi um Gre-Nal de doer com a bola rolando. Por isso, ficou de bom tamanho o desfecho com uma confusão generalizada, agressões e muita discussão. Paulo Nunes lembrou seus tempos de Palmeiras. Não pelo futebol, mas por parecer um integrante da família Gracie, os Pelés do Vale-tudo. Paulo Nunes levou uma cotovelada do lateral Alex fora da bola e revidou com socos e pontapés, como fizera com o coritiano Edilson no ano passado. Acabou expulso junto com Alex.

— Ele esbarrou em mim e me agrediu — defendeu-se Alex.

O estopim para o início de uma batalha em campo. Os jogadores trocaram sopapos e houve muita correria no gramado. Não fosse a intervenção da Brigada Militar, dos seguranças e de alguns jogadores mais comedidos, como o goleiro Hiran e o lateral Roger, o clássico não teria terminado. Danrlei, sumido dos noticiários, reapareceu. Invadiu o campo, mas para acalmar. Tranqüilizou Fabiano que, transtornado, tentava partir para o revide a todo custo. Chorando muito, o atacante foi consolado pelo paraguaio Enciso e retirado do tumulto.

O gol de Ronaldinho perturbou os colorados e esquentou o clima. Antes da briga, o Grêmio escondeu as bolas no vestiário e parou o jogo. Uma delas caiu em frente ao reservado e, rapidamente, foi escondida pelo volante Eduardo. Os dirigentes invadiram a pista e, na beira do gramado, Antônio Lopes pedia o final do jogo. O árbitro Carlos Simon só recomeçou a partida depois de retirados todos da pista atlética. Sem bola para jogar e indignado, Enciso discutiu com o técnico e criticou a sua postura.

— Você não está sendo correto — protestou, com o dedo em riste para Lopes.

Do outro lado, Ronaldinho comemorava. — Futebol precisa de alegria — gritava quem deu luz a um Gre-Nal de pouca inspiração e, infelizmente, transpiração demais.” (Zero Hora, 8 junho de 2000)

 

GRÊMIO 1 x 0 INTERNACIONAL

GRÊMIO: Silvio, Anderson Lima, Marinho, Fabrício e Roger; Anderson Polga, Gavião, Itaqui (Jé) e Zinho (Nenê); Ronaldinho e Amato (Paulo Nunes)
Técnico: Antônio Lopes

INTERNACIONAL: Hiran, Márcio Goiano, Lúcio, Ronaldo (Fernando Cardozo) e Alex; Enciso, Leandro Guerreiro, Marcelo (Leonardo) e Elivélton; Fabiano e Rodrigão
Técnico: Zé Mário

Gauchão 2000 – Segunda Fase – Segundo Turno – 6ª Rodada
Data: 7 de junho de 2000, quarta-feira, 21h15min
Local: Estádio Olímpico, em Porto Alegre-RS
Público: 34.848 (32.897 pagantes)
Renda: R$ 209.692,00
Juiz: Carlos Eugênio Simon
Auxiliares: Marcos Ibañez e Paulo Conceição
Cartões amarelos: Anderson Lima, Fabrício, Roger, Ronaldinho Gaúcho, Amato, Ronaldo, Marcelo, Fernando Cardozo, Rodrigão e Elivélton; Expulsão: Paulo Nunes e Alex
Cartões vermelhos: Paulo Nunes e Alex
Gol: Ronaldinho, aos 44 minutos do 2º tempo