Archive for the ‘Supercopa 1990’ Category

Supercopa 1990 – Estudiantes 2×0 Grêmio

August 6, 2018

1990 estudiantes 2x0 gremio juiz fernando gomes zh

O último jogo de mata-mata entre Estudiantes e Grêmio aconteceu em La Plata, em novembro de 1990, valendo pelas quartas-de-final da Supercopa daquele ano.

O tricolor havia vencido o jogo de ida no Olímpico por 1×0, mas para a volta os argentinos tentaram (e aparentemente foram bem sucedidos) criar um clima de “flash back” da Batalha de sete anos antes. Num jogo de sete expulsões, os argentinos conseguiram chegar ao 2×0 que os classificava aos 44 minutos do segundo tempo

1990 estudiantes 2x0 gremio Trotta gol fernando gomes zh

GRÊMIO PERDE A GUERRA DE LA PLATA
Foi uma noite terrível. Os gaúchos caíram por 2 a 0, atuando com sete homens num jogo de extrema violência gerada pelo Estudiantes.

Estava na cara que, mais do que um jogo, seria uma guerra. O clima de vingança criado pela imprensa e até pelos jogadores argentinos, encaminhava a partida
entre Grêmio e Estudiantes para isso. E, mais acostumados a este tipo de clima, os jogadores do clube de La Plata se saíram melhor e ganharam a partida por 2 a 0, eliminando o Grêmio da Supercopa dos Campeões da América.

Só no primeiro tempo, quatro jogadores foram expulsos, João Antônio e Maurício do Grêmio, Trotta e Centurión, do Estudiantes. Trotta, expulso aos 32, foi o mesmo jogador que marcou o primeiro gol da partida, aos 16. Foi após uma cobrança de escanteio, feita por Capria, aproveita-da pelo centromédio que sem marcação, cabeceou no canto esquerdo de Gomes. O time gaúcho até tentou a reação em seguida, mas as constantes interrupções no jogo, em conseqüência das muitas faltas, e a insegurança resultante da má postura da defesa, impediam que surgissem oportunidades claras de gol.

A arbitragem do chileno Enrique Marín não ajudava o Grêmio a reagir. As faltas duvidosas eram todas assinaladas como favoráveis ao Estudiantes, resultado da pressão da torcida, que jogava pilhas e mirava foguetes para dentro do campo. No segundo minuto do segundo tempo o grupo gremista chegou a ameaçar abandonar o jogo, tal a agressividade dos torcedores. Mas o jogo seguiu. Virou um ringue aos 22, quando o centroavante Nílson e o goleiro Yorno brigaram e foram expulsos (Caio, agredido por Yorno, foi à nocaute e se recuperou), e se transformou numa tragédia para os gaúchos quando aos 44 minutos, após cobrança de escanteio, a bola sobrou para Peinado que fez o segundo gol. O que os argentinos necessitavam para continuar na competição.” (Antonio Bavaresco – Zero Hora – 9 de novembro de 1990)

CAIO DESMAIA.E REVELA MEDO PELA VIOLÊNCIA
Os jogadores gremistas esta-vam desolados ao final do jogo em La Plata. E nem chegaram a reclamar que o árbitro chileno Enrique Marin deixou de dar cinco minutos de descontos. O meia Caio, que ficou desmaiado depois de receber um soco do goleiro Yorno, mostrou sua revolta: — Isso não é futebol. Na Argentina não existe lealdade. E o juiz não deveria ter permitido continuar o jogo. Para mim, que estou começando a carreira, é um desânimo. Mas a solução é levantar a cabeça e seguir em frente no Brasileiro. Já o zagueiro João Marcelo, o último a ser expulso, explicou que o jogo foi duro ” e eles conseguiram fazer dois gols e vencer“. (Antonio Bavaresco – Zero Hora – 9 de novembro de 1990)

CENAS DE UMA BATALHA NA ARGENTINA
Há trinta horas sem dormir, com os uivos e gritos dos “pincharatas” ainda retumbando e a sensação de que o Barão de Coubertein decidamente não imaginava a inversão de valores quando proclamou que o importante é competir, fica difícil explicar, para quem não presenciou, o que realmente se passou em La Plata. O que for relatado parecerá exagero e ainda assim será menos do que o clima que vivemos – todos os brasileiros, sem distinção – na aprazícel capital da Província de Buenos Aires. Um terror que começou muito antes do apito do atordoado árbitro chileno Enrique Marin e continuou muito depois de conseguida a classificação. É de se refletir. Vale a pena se investir no futebol para decidir um jogo a socos e na intimidação?

36 HORAS DE TENSÃO
Durante as cerca de 36 horas que o Grêmio permaneceu em La Plata – especialmente nas primeiras 24 – a pressão psicológica foi intensa. A todo instante, passava algum dos fanáticos “pincharata” e com o dedo apontado cruzando o pescoço em uma diagonal, ameaçavam: – Vamos a ganar negrón! A reação dos jogadores foi diferente. Enquanto alguns demonstravam total tranquilidade, outros estavam visivelmente ansiosos por colocar um final naquela situação angustiante. A polícia vigiava a entrada do hotel.

EMPRESÁRIO IRRITANTE
O empresário argentino Luiz Scalccioni rondou o Hotel El Corregedor, onde o Grêmio se hospedou, desde a quarta-feira pela manhã, aparentemente para prestar ajuda (ele pertence à diretoria do Estudiantes). Excessivamente solícito e amável, ele não se furtava em fazer aquele tipo de comentário de quem ameaça, sem assumir o risco. A estratégia ia irritando tanto a nós, que tentávamos nos desvencilhar de Scalccioni – conhecido por ter intermediado a transferência de Ancheta para o futebol brasileiro – quanto (e principalmente) à comissão técnica gremista. Resultado: o técnico Evaristo de Macedo saiu do sério e, dedo em riste, gritou alto: – O senhor fique calado e não se aproxime de nenhum de meus jogadores.

UMA RUIDOSA RECEPÇÃO
Na noite que antecedeu o jogo ninguém dormiu antes da 1 da madrugada, nas cercanias do El Corregedor. Antes a passividade dos policiais, torcedores argentinos batiam tambores e soltavam foguetes. Mas, naquela ocasião, o clima era de uma intimidação provinciana, que em nada fazia prever aquilo que se viu na hora da partida. Até então, todos encararam esta provocação com naturalidade e isso não chegou a perturbar o ambiente. Exceto para os moradores locais.

TRANSMISSÃO AMEAÇADA
A chegada dos brasileiros ao Estádio Jorge Hirschi, precedida de um enorme aparato militar, foi – diante do quadro geral – até tranquila. Os problemas surgiram depois. Os selvagens torcedores começavam a aprontar. Com a ajuda de canivetes e isqueiros, cortaram os cabos das duas emissoras gaúchas – Rádio Gaúcha e Rádio Guaíba – que cobriam a partida. Um dos repórteres ainda tentou reagir, puxando o fio. Mas era tarde. Lá se iam 25 metro de cabo, com microfone e tudo.

EM CAMPO, A VIOLÊNCIA
O jogo foi exatamente como as emissoras de rádio descreveram. Truncado. violento, nervoso e desleal. Os entre-choques eram constantes. O primeiro deles aconteceu quando João Antônio e Trotta — autor do gol do Estudiantes — trocaram pontapés. Os dois foram expulsos, Minutos depois, foi a vez de Ion levar uma cotovelada de Centurión. Maurício tirou satisfações, foi ofendido, agrediu o adversário. Cartão vermelho para ambos. Os foguetes são jogados a toda hora sobre o goleiro Gomes. No segundo tempo, o árbitro chileno chega a determinar o encerramento do jogo, mas volta atrás. Nílson e Yorno trocam agressões, Caio — que foi apartar — é covardemente agredido pelo goleiro. Mais duas expulsões. Finalmente, quando o Grêmio equilibra e até se supera no jogo, com João Marcelo como destaque, vem o castigo. Enrique Marin tira o zagueiro e o segundo gol torna-se inevitável.”

FUGA NA MADRUGADA
Diante das cenas de selvageria, um radialista gaúcho estava decidido a dormir na cabine e esperar que não houvesse um “pincharrata” sequer num raio de vários quilômetros. Aí, sim, voltaria ao hotel. Uma fuga do estádio. Sim, fuga! Escondidos, os jornalistas que estavam no 57 y 1 (como é conhecido o Estádio Jorge Hirschi) saíram sem poder falar muito, para não chamar a atenção. E finalmente, tudo estava terminado. Fim da guerra. Voltamos a ser “hermanos”. O engraçado é que fomos para cobrir um jogo de futebol, não uma revolução portenha. Mas o futebol fica para a próxima.”

UM ‘CORREDOR POLONÊS’
A entrada do jogadores gremistas no gramado foi um capitulo à parte. Para oferecer maior segurança, os argentinos costumam usar um túnel Estava tudo pronto para a sua utilização, quando os cabos que alimentavam o ventilador foram rompidos. O jeito foi entrar correndo ante uma chuva de toda a sorte de objetos, numa especie de “corredor polonês”, tentando se esquivar das agressões. sem qualquer proteção da polícia de choque, amedrontada demais para isso.

COMEMORAÇÃO E SARCASMO
No restaurante do Catio (La Taba) – um bom amigo que fizemos, o único – uma hora da manhã e a ópera tem seu capítulo final e mais sarcástico. Entramos conversando – finalmente – e mal nos recomposemos, quando percebemos a presença de alguns “inchas de Estudiantes”. Entramos sorrindo (que remédio!) e recebemos a informação em primeira mão: – Os jogadores estão no andar de cima, comemorando a vitória e gostariam de tirar um foto com vocês. Tiramos.
E a ironia continua. Na mesa ao lado, quem comemora a vitória é o Comissário de Polícia Geral de La Plata e seu primeiro escalão. Enquanto isso, no Hotel Corregedor, onde se hospedou o Grêmio, um policial segurava um lenço ensanguentado junto à orelha esquerda, marca da “guerra”.(Antonio Bavaresco – Zero Hora – 10 de novembro de 1990)

1990 estudiantes 2x0 gremio fernando gomes zh

IMPRENSA LOCAL FAZ ELOGIOS
O El Dia, único jornal diário da cidade de La Plata, encarnou a garra e o espírito dramalhesco dos jogadores do Estudiantes, e ontem, dia seguinte à vitória sobre o Grêmio, estampou a seguinte manchete: “Classificação custou sangue, suor e lágrimas ao Estudiantes”. Saudava a conquista e valorizava pouco as agressões dos jogadores e a violência da torcida. Os jornais da capital argentina, Buenos Aires, foram menos emocionais e mais informativos. O Clarin contou que o “Estudiantes passou de fase em partida acidentada”, e na crônica do jogo referiu-se a “fatos lamentáveis”, “batalha campal”, e a “abundância de agressões”. Desgraçadamente, disse o jornal, tiveram êxito aqueles que criaram um clima de guerra, entre estes os próprios gremistas, em especial os torcedores, que “maltrataram os jogadores do Estudiantes em Porto Alegre”. O La Nacion, também de Buenos Aires, seguiu a mesma linha critica. “Estudiantes se impôs ao Grêmio e é semifinalista”, disse na manchete, comentando nas linhas seguintes que os torcedores argentinos haviam recebido o Grêmio com bombas e todo o tipo de projéteis. “Mandaram os nervos”, resumiu, elogiando apenas um fato: o de o Estudiantes ter perseguido sempre a vitória, único aspecto positivo de uma noite violenta.” (Zero Hora – 10 de novembro de 1990)

GRÊMIO MORRE NA BATALHA DE LA PLATA E ESTÁ FORA
Sonho da Supercopa terminou em meio a uma verdadeira selvageria. Sete jogadores foram expulsos. Eliminação veio no último minuto
E a guerra que estava prevista em La Plata acabou se confirmando ontem à noite. O Grêmio não teve forças para sair vivo da cidade argentina e assim permanecer na Supercopa deste ano. A derrota por 2 a 0 para o Estudiantes elimina o time gremista da competição, ao lado de Santos e Cruzeiro. O jogo teve sete expulsões e muita confusão, com lances de agressão e brigas generalizadas entre jogadores e dirigentes. Os gols foram de Trotta e Peinado, um em cada tempo.
Além de lutar contra a violência do adversário e a fúria da torcida argentina, o Grêmio ainda teve pela frente a fraca arbitragem chilena que prejudicou a equipe brasileira. Logo nos primeiros 20min parecia que o jogo ia ser tranquilo. A partir daí não houve mais futebol. O Estudiantes, que em Porto Alegre havia dado mostras da sua deslealdade, agredia covardemente os jogadores gremistas tentando intimidá-los. O arbitro Enrique Marin fazia vistas grossas mas não deixou de expulsar dois jogadores de cada lado no 1º tempo.
Para o 2° tempo, o clima piorou. O gramado que já parecia mais um campo de batalha foi alvo de foguetes a pedras, além do reservado gremista ser atingido com um tijolo. O jogo chegou a ser paralisado por 5min. No recomeço, o Grêmio, com mais preparo físico, voltou pressionando mas sem criar chances de gol. No final, o Estudiantes reagiu e depois de Gomes ter operado dois milagres, Peinado, aos 44min, aparando um rebate de fora da área, decretou o placar final. Agora resta ao tricolor pensar no Campeonato Nacional.” (Pioneiro, 9 de novembro de 1990)

1990 joao antonio b - CópiaFotos: Fernando Gomes (Zero Hora)

Estudiantes 2×0 Grêmio

ESTUDIANTES: Yorno, Ramírez, Iribarren, Pratola, Erbin, Trotta, Peinado, Commiso, Capria (Aredes), Bello (Sanelli), Centurión
Técnico: Humberto Zuccarelli

GRÊMIO: Gomes, Alfinete, João Marcelo, Íon, Hélcio (Biro-Biro), João Antonio, Jandir, Caio e Assis; Mauricio e Nilson.
Técnico: Evaristo de Macedo

Supercopa 1990 – Quartas de final – Jogo de volta
Local: Estádio Jorge Luis Hisrch, em La Plata (ARG)
Data: 8 de novembro de 1990, 21h30min
Árbitro: Enrique Marin (Chile)
Auxiliares: Gaston Castro e Ivan Guerreiro (Chile)
Cartões amarelos: João Marcelo, Gomes, Ion, Caio, Hélcio e Jandir; Bello, Trotta e Erbin
Cartões vermelhos: João Antonio, Mauricio, Nilson e Joao Marcelo; Trotta, Centurion e Yorno
Gols: Trotta, aos 16 minutos dos primeiro tempo; e Peinado, aos 44 minutos do segundo tempo.

Advertisements